Um poeta na sombra.

Bruno Cunha, um poeta na sombra

Lendo poemas. (foto cedida por Marta Leonardo)

Este é um post mais atípico. De qualquer das formas, não costuma haver posts típicos neste blog. Ok, há um padrão, mas agora mando às malvas o padrão. Aviso já que até vai haver um poema! E porquê? Porque o criador e autor de Marca de Homem esteve presente no Open Day 8.0 da ADAO, tal como já referi aqui e aqui.

  • 1º Acto: andei de microfone em punho e papillon ao pescoço, a ler micro-contos aos visitantes do evento. Uns riram, outros sorriram, outros, mais sorumbáticos, devem ter olhado para o papillon gigante e pensado “Olhem-me só este palerma”. Felizmente que não há fotos minhas em plena acção interventiva como contador de pequenas histórias. Mesmo se existissem eu nunca as poria aqui.

Eis o micro-conto que mais li:

A história do rio que correu velozmente em direcção ao mar mas nunca o conseguiu encontrar

Veio o Verão. O rio secou.

  • 2º Acto: numa pequena sala escura, e quase às moscas, li alguns poemas meus. Da minha perspectiva, foi giro ver a reacção da filha da minha namorada e que parecia repetir “Olha só este palerma…”; mas o pensamento dela acrescentava algo mais perturbador: “… E ainda por cima namora com a minha mãe”. Ai como são tímidas estas novas gerações! Mas, no final, tive um comentário muito gratificante: “Precisamos de mais estupores como você”. Se lerem o poema que irei colocar neste post, acho que irão perceber.
Papillon gigante colorido 2

Papillon gigante.

Ah, tive direito a uma imperial Sagres (acho eu) de graça! Nada mau. Pena foi ser servida num copo de plástico, mas com tanta gente, e com os custos envolvidos, eu até percebo a razão (ando mal habituado com as cervejas artesanais…). E também havia paparocas, para quem tivesse um ratinho no estômago.

Se me diverti? Imenso! Antes de mais nada, o(s) espaço(s) da ADAO são incríveis, com opções tanto inside como outside (e ainda há uma torre com salas! afinal de contas a ADAO instalou-se num antigo quartel de bombeiros).

Depois a programação era muito variada: música (alternativa mas de muitos estilos), pintura, escultura, teatro, cante alentejano, performances, etc. E até poemas. Os meus. Aqui vai um estupor de um exemplo:

Sou 1 escritor

Sou 1 escritor,

1 estupor.

Junto umas palavras,

arrumo umas frases,

balbucio moralidades,

escrevo alarvidades

e finjo dor.

Mas eu sou 1 escritor,

1 estupor.

Julgo-me 1 poeta

mas esbarro nas palavras,

corto a direito nas ideias

e salto por cima dos acentos,

da sintaxe.

Raios partam as paralaxes!

Nas letras sou 1 atleta.

Uma treta!

Mas eu sou 1 escritor,

1 estupor.

Digo que amo,

digo que sofro,

digo que rimo,

digo que invento…

Tretas, muitas!

Não escrevo para as almas.

Escrevo para o meu umbigo

quando finjo pensar em ti,

leitor.

Sou 1 escritor,

1 estupor.

Sugo as pessoas,

crio personagens,

invento diálogos

mas são tudo montagens.

Coloco letras e palavras em engrenagens

e depois carrego num botão.

Sai-me tudo de supetão.

Mas sou 1 escritor,

1 estupor.

Escrevo em finos cadernos

mas apenas rabisco desenhos.

Escrevo em papel higiénico

e depois dou-lhe o devido uso.

Sou 1 abuso!

Finjo-me humilde.

Sou 1 arrogante!

Nas letras, pedante.

As palavras, minhas escravas.

Jogo com as mentes

e desejo leitores sempre presentes.

Adorem-me!

Idolatrem-me!

Dou autógrafos baratos.

Olho para os decotes das mulheres.

E elas rendidas

caem na minha cama,

estendidas, fodidas.

Batam palmas!

Sou 1 best seller.

O melhor, nas calmas.

Mas não…

Sou apenas 1 escritor,

1 estupor.

 

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