Um paço em segredo.

Sopa de Atum do Mediterrâneo

Um segredo turco muito bem escondido: Sopa de Atum do Mediterrâneo.

AVISO: este post é surpreendentemente chocante: envolve mistério, espionagem, segredo e gastronomia turca. Como é que isto aconteceu? Vamos por partes.

PRÓLOGO

Em Lisboa há restaurantes que primam pelo mistério. Digamos que é apenas estratégia de marketing. Agora são conhecidos. Mas já houve experiências prévias em que o segredo foi o tempero principal. Por exemplo, o Kome Escondido. Já ouviram falar? De qualquer das formas, eu vivi uma aventura gastronómica digna de um filme de espionagem. Vou levantar o véu…

DE OLHOS VENDADOS

“Queres conhecer e saborear uma cozinha diferente?” Do outro lado do telemóvel um amigo fez-me este desafio. Eu disse que sim, como devem calcular. “Ok, no dia X, pelas Y horas, estaciona o carro na rua W, junto ao café Z. Podes levar só uma pessoa contigo.”, continuou o meu amigo, desligando em seguida. Fiquei algo perplexo mas curioso. Algo na voz dele parecia soar a conspiração.

No dia X, às Y horas, na rua W, junto ao café Z, lá estava eu e a minha namorada à espera do meu amigo. Mal estacionei aproximaram-se de nós dois sujeitos. “Senhor Bruno?”, perguntou um deles num sotaque desconhecido. “O seu amigo pede desculpa mas não pode ir ao restaurante. Somos nós que o vamos levar até lá. Venha connosco, o nosso carro está ali.” Hum, franzi a sobrancelha. Dei a mão à minha namorada e desafiei-a: “Vamos?”

Aproximámo-nos de um carro escuro, um Mercedes de gama média/alta (não sei qual o modelo). Abriram as portas de trás e convidaram-nos a entrar. Cintos postos, e antes do carro arrancar, o mesmo sujeito que tinha falado connosco atemoriza-me. “Desculpem, o restaurante é secreto. Não podem saber onde fica. Ponham estas vendas, por favor.” Ok, neste momento só queria ter o meu amigo à frente para lhe dizer umas das boas. Aquilo era mesmo coisa dele. Tem a mania das partidas. Disse à minha namorada que deveria ser uma brincadeira. E lá fomos nós, rumo ao desconhecido, quase em jeito de filme 007.

UM SEGREDO BEM GUARDADO

Senti que andámos às voltas, algures no concelho de Oeiras (o concelho onde moro). Quando o carro parou disseram para tirarmos as vendas. Havia outro automóvel estacionado à frente do nosso, num caminho que terminava num portão de garagem. Abriram as portas da viatura e convidaram-nos a sair. As trepadeiras por cima de nós formavam um túnel. “É por aqui.” Seguimos um dos sujeitos, atravessando um jardim pouco iluminado mas com muita vegetação. Percebi que estávamos nas traseiras de uma casa apalaçada, mas que íamos em direcção a um anexo de aspecto mais minimalista e moderno. Quando entrámos, quase que esbarrámos num biombo. “A vossa mesa é aquela.”, disse o sujeito. Também não havia nada que enganar. Era a única!

O espaço não tinha nada de especial. Era até quase frio e impessoal, mas aconchegado porque estávamos rodeados de biombos. Calculei que houvesse mais mesas, mas cada uma estava protegida dos olhares por estas frágeis barreiras. Havia música a tocar. Pelo som deduzi que fosse do Próximo ou do Médio Oriente. Era uma espécie de entrada para o que iríamos ter nos pratos.

TOCA A COMER, OK?

Não havia menu, apenas dois pratos (que não eram novos), quatro copos (dois de água e dois de vinho) talheres e guardanapos de papel. À laia de aviso bem explícito, um cartão em cima da mesa: “DO NOT TAKE PHOTOS, PLEASE.” Eh pá, que filme!

Passados uns minutos surgiu uma mulher com um grande prato redondo, a fumegar. Tinha um ar exótico, exibindo uns lábios pintados de vermelho vivo. Pousou o prato. Apresentou-se primeiro e depois serviu-nos. Disse que se chamava Christina Marqüç (disse que era nome fictício mas fez questão de o soletrar). É uma chef turca, mas não disse mais. Depois apresentou-nos a entrada: Mexilhões à Constantinopla. Só deu uma explicação: os mexilhões deveriam ser degustados sem o acompanhamento de nenhuma bebida. Saiu, mas disse num tom imperativo mas gozão: “Eat everything!” Fomos bem mandados. Mas comemos todos, estavam deliciosos! O tempero fazia lembrar as Amêijoas à Bulhão Pato, mas muito mais condimentado.

Mal terminámos apareceu um jovem moreno, de corte de cabelo militar. Trazia uma garrafa de água e outra de vinho branco (do Douro!) e também mais guardanapos. Não nos dirigiu palavra. Calculo que deveriam ser essas as suas instruções. A chef apareceu de novo, agora com uma bandeja:”Bifes de Atum do Mediterrâneo”, indicou em inglês. Também estavam muito bons mas bendita água e vinho. O tempero estava apuradíssimo, com um picante q.b. Lambi os dedos com prazer.

“E agora, o que será a sobremesa?”, perguntou a minha namorada, que tinha estado muito divertida com esta nossa aventura gastronómica. Entrou o rapaz de corte de cabelo militar. Não era mudo: “The car is waiting for you. The bill is payed.” Por esta é que não esperávamos. Não havia sobremesa, mas também não havia conta?!? Que raio, o meu amigo iria ter de me explicar muita coisa. A música agora também se ouvia no jardim. Pareceu-me ser Pete Namlook e Burhan Öçal, no disco Sultan (tenho!).

O MISTÉRIO PERMANECE

De novo no carro, de novo de venda nos olhos. A caminho da rua W, junto ao café Z. Calados mas simpáticos, os mesmos dois sujeitos levaram-nos até ao meu automóvel. Despediram-se, em inglês, e partiram tão furtivamente como tinham chegado. Ainda estou a digerir esta experiência que nos foi servida em doses generosas de surrealismo e de incredibilidade. Mas agora já sabem: se um dia destes receberem um telefonema meio misterioso de um amigo para um convite deste tipo só vos posso dizer que se podem chegar à frente, num Paço em segredo, mas seguro, convenhamos…

E termino com mais um mistério, em forma de sugestão de filme:

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