Conan, o rapaz do futuro?

Como é que um acontecimento pouco relevante a nível musical (na minha perspectiva) — O Festival da Canção —  tem levantado tanta celeuma a propósito da canção e do intérprete vencedores?

Antes de abrir as “hostilidades” (e, aviso já, este post estará recheado de vernáculo e será longo), vale a pena fazer um intróito.

NO LIMITE DA ESTRANHEZA E DO (BOM) GOSTO

Há pouco menos de um ano ouvi pela 1ª vez Conan Osíris na rádio Radar. Lembro-me bem que a minha reacção foi “Foda-se, que merda é esta?”.  Aquilo saia um bocado fora dos padrões daquela estação radiofónica mas, por mais estranho que possa parecer, senti que havia ali qualquer coisa sui generis, mesmo na improvável fronteira entre o muito bom e o muito mau. Obviamente fiquei confuso, incapaz de ter uma opinião concreta sobre o que tinha acabado de escutar. O tema era Celulitite. Abram bem esses ouvidos:

Três coisas destacaram-se logo: A voz do rapaz; a parte instrumental; a letra da canção.

  • A voz: soou-me exótica mas interessante, com evidentes inspirações ciganas, fadísticas e orientais, tudo num só registo, o que é obra, apesar de alguns tiques mitra (mas o rapaz também é isso);
  • A música: o meu desnorte instalou-se porque há influências variadas, umas que gosto, outras nem tanto. Gosto da inspiração oriental, gosto menos da batida mais ou menos africana. O problema (para mim) é que “aquilo” está bem produzido e bem misturado, e isso lixou-me porque até soou bem aos meus ouvidos;
  • A letra: aqui é que a porca torceu o rabo. Que porra de cena é aquela? Que nexo filho da puta? Mas acontece que, depois do espanto inicial, me ri p’ra caraças.  Para mim, no início era o elo mais fraco da coisa, mas agora, meses passados, e com outras músicas escutadas, percebi que há ali um nexo under 25, uma mitrice suburbana latente, uma desconexão quase dadaísta, que cada um interpreta como quiser. Passados uns tempos a cena começou a fazer algum sentido, mas temos de a enquadrar num cenário que eu não adivinharia: a música deste gajo trouxe à ribalta um esquecido conflito de gerações! (já lá irei).

Tomem lá este pedaço da letra de Celulitite (vão ficar de boca aberta e sem atinarem uma porra); agora o que eu acho interessante — e por estar (ainda) ligado à escrita — é que as rimas do gajo são sonoras, desconstrutivas e aparentemente aleatórias. Prefiro isso a ouvir vezes sem conta “I love you” e outras merdas completamente inócuas e balofas.

Ali pisaste, ali ficaste
Ali partiste a party com o lípido que abanaste
Paulatinamente, praticamente nunca papaste
Trabalhas ‘pa patrulha pela pata que apanhaste

UM CULTO EM ANDAMENTO

Para os mais distraídos (uma imensa maioria) Conan Osíris já era conhecido num circuito (já não tão restrito) de algumas rádios mais alternativas, dando concertos em cenas mais ou menos hipster, tendo estado presente no último Festival Paredes de Coura, por exemplo.

Conclusão: OSÍRIS REACENDEU O CONFLITO DE GERAÇÕES!

Sim. O gajo é apreciado (e compreendido) por uma faixa etária mais baixa (diria dos 15 aos 30 anos); malta que passa a vida ao telemóvel, que domina e tem interesse nas novas tecnologias, e vive intensamente as redes sociais. Sinais dos tempos.

É engraçado eu assistir a muito pessoal com mais de 40 anos que tem ficado escandalizado com o gajo, soando aos meus avós quando eu tinha 20 anos. Porra, a memória é curta. Parecem os novos Velhos do Restelo. Já se esqueceram do que ouviam quando era mais novos. Foda-se, com 14 ou 15 anos eu comecei a ouvir bandas punk, gente que pouco sabia tocar e com letras de raiva e de adrenalina, com alfinetes de ama pregados nas roupas e no corpo e cabelos espetados. E agora ficam escandalizados com um gajo que se veste como se fosse um andarilho do século XXII? Já se esqueceram do António Variações? Eu vou recordar-vos…

VARIAÇÕES SOBRE VARIAÇÕES

Alguma gente pode achar a comparação herética, mas ela é inevitável. Pior, agora o António Variações é intocável. Mas eu recordo que ele em vida não foi apreciado por aí além. Ainda me lembro bem da curta evocação da morte dele num concerto dos Trovante, no Coliseu de Lisboa, em 1984. Muita gente não sabia quem era. Mas o António era de outro tempo, não havia nem internet, nem redes sociais, em vida não teve a devida projecção. Bastou morrer…

Se eu comparo o Conan Osíris ao António Variações? Sim, comparo! Não é na música, nem no estilo. O António misturava o rock com influências de alguns géneros ditos folclóricos e populares do Norte de Portugal, e também o fado (aliás, esse é o único ponto convergente com Conan Osíris — o fado e Amália). A comparação é no género de atitude, na genuinidade de um e de outro. Sim, acredito na autenticidade do Osíris. Ele parece ser aquilo que é, apesar de muita gente discordar.

O próprio Conan está farto dessas comparações. Mas ressalva um ponto importante: o António Variações era um intérprete! Teve a felicidade de se ter rodeado de bons músicos e produtores. E o seu talento e originalidade ganhou asas e voou. Já o Conan, que também é intérprete, produz e compõe todas as suas músicas, tudo a partir de um computador caseiro e de um programa de edição musical mais ou menos comum. Ele não é um músico, no sentido tradicional da palavra. Mas muitos dos intérpretes da música pop também não o são. O truque é distinguir o trigo do joio (mas para uns o trigo pode ser o joio e vice-versa).

E aqui, em traços muito gerais, chegamos a outro ponto muito importante:

A INDÚSTRIA MUSICAL MAINSTREAM

É uma merda. Os estilos são a coisa mais bexigosa que eu ouvi: r&b da treta, reggaeton (dá-me vómitos), kizomba, hip-hop mas do mauzito, pop juvenil manhoso, música de dança da mais tramposa, etc., etc.

A maioria dos “artistas” e intérpretes são como que fabricados numa linha de montagem. Faz parte da nossa voragem consumista. Não é arte, é entretenimento. E as estrelas pop (para mim são mais cometas) fabricam-se com facilidade. Vejam estes três exemplos:

Elucidados? E agora mais um embuste:

OS EVENTOS FESTIVALEIROS

A bosta continua. Daqui raramente sai alguma coisa de jeito. Mas o pessoal fica todo escandalizado: “Ai o Salvador Sobral, que porcaria, vai ficar em último lugar”. Mas ganhou. É o maior! Hipótese plausível: o Conan ganha aquela merda: “Épá, eu sempre acreditei nele! O gajo é um génio!”. Foda-se, mentira. Mas é assim que funciona.

Quando era bem novinho recordo-me que via os festivais nacionais e internacionais com os meus avós. Era um acontecimento, só havia um canal ou dois de TV, não havia internet, nem se sonhava com isso. Lembro-me da Tourada, interpretada pelo Fernando Tordo, ainda antes do 25 de Abril. Ou o E Depois do Adeus. Mas pouco mais. Na Eurovisão fica para sempre na memória Waterloo, pelos ABBA, possivelmente o único grupo que teve uma carreira consistente depois desse evento. Quase todos os outros foram apenas pequenos episódios mais ou menos efémeros.

Já há muitos anos que não me meto em festivais. Não vi o Festival da Canção em que o Salvador Sobral ganhou. Vi a vitória dele na Eurovisão, mas em diferido. Com o Conan foi a mesma coisa. Vi Telemóveis no youtube e pronto. Mas voltemos ao essencial…

GÉNIO OU NÃO, EIS A QUESTÃO

Ficou muito por dizer, mas tudo se resume a uma coisa essencial: o gosto pessoal de cada um. Por exemplo, não gramo Queen. Reconheço-lhes o talento, mas não consumo. Por isso compreendo que não se goste de Conan. O gajo e a música são estranhos. Para mim também são. Mas consigo ver aqui e ali uma ponta de génio naquela chunguice que está latente e ele também não a esconde. Por isso o considero genuíno (lamento a heresia, fãs de António Variações). Se o tipo é ou não o rapaz do futuro (ou com futuro), só o futuro o dirá (passe pleonasmo). Possivelmente, se ele continuar a trilhar o seu caminho, ou caminhos, poderá consolidar-se como algo de único no panorama musical português. Pode ser também um fogo fátuo. Pior ainda: o gajo é captado pela indústria musical dominante e vira um verdadeiro cocó sem personalidade. E isso seria a sua maior derrota.

Obrigado. E só mais uma:

3 thoughts on “Conan, o rapaz do futuro?

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  2. Assim que ouvi a musica, rodeada de alguns críticos negativos, so conseguia dizer: não consigo dizer que não gosto, embora também nao consiga dizer que gosto.
    É esta ambiguidade de emoções que os grandes artistas, distinguidos na história, deixam nas pessoas.
    Ainda não sei se gosto de não gosto…

    • Ana, concordo inteiramente consigo. Eu acho que ela já é artista, mas se será um dia grande ou não, só o futuro o dirá. Mas este fenómeno do Conan Osíris tem sido bastante interessante até para perceber o que é arte e o que não é. Vamos estar atentos às cenas dos próximos capítulos…

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