A arte moderna é um bicho de sete cabeças. E ainda bem.

No saying Yes

No Saying Yes. Instalação visual e sonora de Rui Toscano, uma obra da Colecção Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.

Gosto de arte moderna. Obviamente que não de toda (nem os meus conhecimentos sobre o assunto são assim tão vastos). Mas é um bicho de sete cabeças e ainda bem! O que quero dizer com isto? A arte moderna é muito vasta e multifacetada, é para todos os gostos. Para quem a aprecia, claro. A minha mãe não acha piada nenhuma. Eu até a percebo porque há coisas que não se entendem, mas isso é a beleza da arte: cada qual a pode interpretar como quiser. Por exemplo, gosto bastante dos filmes de David Lynch, mesmo que por vezes fique às aranhas com as histórias que conta, como é o caso do belíssimo Mulholland Drive (que tem um dos beijos mais tórridos de toda a história do cinema).

Isto não vem ao acaso: um dia destes, com algum tempo livre, fui visitar a Colecção Moderna da Gulbenkian. Já não ia lá há uns bons anos e fui apenas para fruir o espaço e as obras, sem grande preocupação em decorar os nomes dos autores e das suas obras.

Ninguém pode esperar normalidade nos conceitos e nas abordagens dos artistas, muitos deles à frente do seu tempo, sendo ainda hoje marcos de verdadeira modernidade (seja o que isso for).

A Colecção Moderna é composta principalmente por esculturas, instalações e quadros, havendo uma cuidada retrospectiva sobre os primórdios e evolução da arte moderna nacional até aos dias de hoje. São obras que reflectem as transformações políticas, sociais e económicas dos séculos XX e XXI. São mais do que meras paisagens decorativas. São reflexos da sociedade e de todos nós (isto pode soar balofo, pretensioso e lugar-comum mas é um dado adquirido. Eis mais dois exemplos:

É inquestionável: a arte moderna pinta a nossa vida com as cores e as abordagens que quisermos. Apesar de algum do it yourself, não se pense que é pegar num material qualquer e fazer uma borrada et voilà, temos uma fantástica obra de arte. Sei que algumas parecem ser isso (e que há artistas que nitidamente gozam connosco) mas há quase sempre um trabalho exploratório a priori. Estes quadros acredito que são a prova disso:

Pronto, se querem que o vosso cérebro faça faísca ou entre em tilt não sejam mariquinhas e vão até à Gulbenkian. Nem que depois seja para ficarem com um nó na tola ou então gozarem com o assunto. A arte moderna é provocatória e também serve para isso. Enjoy, if you can.

E agora o tal beijo tórrido do filme Mulholland Drive, de David Lynch:

 

Tic-tac, tic-tac, tic-tac…

Swatch Irony Chrono YCS4004AG:AL

Swatch Irony Chrono YCS4004AG/AL, mas sem a bracelete original (esta é de borracha).

A partir de um certo momento da sua vida começou a viver com o Big Ben dentro de si (de uma forma metafórica, como é fácil de perceber). Os ponteiros do mostrador sempre avançaram na mesma direcção, mas tinha a sensação que agora se movimentavam de uma forma mais rápida e fluida. Ouviu nas notícias algo sobre a mudança do mecanismo do famoso ícone de Londres. Mas era capaz de ser um boato. Ou então tinha sonhado com isso. Seja como for, queria continuar a viver com estilo, mesmo se o Big Ben resolvesse parar num estático segundo. Foi então que se lembrou de um relógio de pulso antigo. Ainda funcionava e, como sempre, atrasava-se. Não hesitou. A partir desse momento nunca mais o tirou do pulso. Tinha descoberto a poção do seu rejuvenescimento.

E agora uma música que nos fala do, por vezes, inevitável desacerto da vida:

 

Walk on the mild side.

Caminhar não é algo que exige muito. Isto se não tivermos nenhum impedimento de maior ou um problema de saúde. Mas quando metemos os pés aos passeios ou às calçadas gostamos de o fazer de uma forma descontraída e com estilo. E é aqui que se faz ao caminho um par de sapatilhas, por exemplo.

As que hoje mostro foram baratíssimas! Sei que as comprei há cerca de 10 anos (!), numa loja de desporto do Freeport, e que custaram 15€, se a memória não me atraiçoa. Estavam empilhados num cesto, juntamente com muitos outros. Acho que deveriam ser restos de colecção.

Estas sapatilhas são da Lotto, uma marca de desporto italiana que não tem grande expressão (pelo menos em Portugal). São muito leves, assentam que nem luvas e dão um caminhar rápido mas solto. Nada de os meter em caminhos de cabras! Nem eles nem os vossos pés iriam apreciar.

Walk on the mild side*? Com estes Lotto, certamente.

*Alusão à música “Walk on the wild side“, de Lou Reed.

Nem de propósito, eis a música, com uma letra que gerou (e ainda gera) controvérsia:

Lost in music (parte 3).

Continuando a viajar pelo meu universo musical, eis que no final dos anos 80, por entre o gosto por alguma house e techno, e com o decair da minha apetência pelas bandas baptizadas em Portugal de urbano-depressivas (mais recentemente o chamado goth rock), surge uma editora discográfica que (re)definiu os meus padrões jazzísticos: a ECM.

Jazz planante, dos países do Norte da Europa, música do mundo cruzada com improvisação, fusão de padrões clássicos com um certo avant-gard experimentalista, texturas sofisticadas mas, por vezes, despidas e enquadradas em conceitos minimalistas. Se a ECM não é isto, então oiçam e conceptualizem também.

Eis mais um exemplo:

E agora um recuerdo urbano-depressivo:

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Lost in music (parte 2).

Este post vem no decurso de um anterior. Depois de um mix há sempre um remix. Isto só para dizer que tinha para aí 13 ou 14 anos quando andava ocupado a ouvir o chamado rock sinfónico, hoje mais conhecido por prog rock: eram os Genesis (ainda com Peter Gabriel), os Yes, os Emerson Lake & Palmer, os Jethro Tull, só para falar dos mais conhecidos. Era tudo tipos com talento, virtuosismo e conhecimentos musicais acima da média, que compunham e tocavam faixas que demoravam uma eternidade, mas eu até gostava (os Pink Floyd também se enquadravam neste género musical tão teatral e grandiloquente). Eu dou 2 exemplos:

Ok, deixo aqui um delírio de mais curta duração, de uma banda holandesa:

Mas no final de 1977, princípio de 1978, tudo iria mudar. Na música pop e nas minhas hormonas. E um novo mundo (musical) se abriu perante os meus ouvidos. Tudo passou do 80 para o 8. Hey Ho Let’s Go!

De repente tudo estoirou na movida punk. Até tipos como Lemmy entraram neste novo supetão de músicas curtas, brutais e directas. O rock and roll ressuscitava!

Em breve iremos apanhar os estilhaços num próximo Lost In Music.

Um poeta na sombra.

Bruno Cunha, um poeta na sombra

Lendo poemas. (foto cedida por Marta Leonardo)

Este é um post mais atípico. De qualquer das formas, não costuma haver posts típicos neste blog. Ok, há um padrão, mas agora mando às malvas o padrão. Aviso já que até vai haver um poema! E porquê? Porque o criador e autor de Marca de Homem esteve presente no Open Day 8.0 da ADAO, tal como já referi aqui e aqui.

  • 1º Acto: andei de microfone em punho e papillon ao pescoço, a ler micro-contos aos visitantes do evento. Uns riram, outros sorriram, outros, mais sorumbáticos, devem ter olhado para o papillon gigante e pensado “Olhem-me só este palerma”. Felizmente que não há fotos minhas em plena acção interventiva como contador de pequenas histórias. Mesmo se existissem eu nunca as poria aqui.

Eis o micro-conto que mais li:

A história do rio que correu velozmente em direcção ao mar mas nunca o conseguiu encontrar

Veio o Verão. O rio secou.

  • 2º Acto: numa pequena sala escura, e quase às moscas, li alguns poemas meus. Da minha perspectiva, foi giro ver a reacção da filha da minha namorada e que parecia repetir “Olha só este palerma…”; mas o pensamento dela acrescentava algo mais perturbador: “… E ainda por cima namora com a minha mãe”. Ai como são tímidas estas novas gerações! Mas, no final, tive um comentário muito gratificante: “Precisamos de mais estupores como você”. Se lerem o poema que irei colocar neste post, acho que irão perceber.
Papillon gigante colorido 2

Papillon gigante.

Ah, tive direito a uma imperial Sagres (acho eu) de graça! Nada mau. Pena foi ser servida num copo de plástico, mas com tanta gente, e com os custos envolvidos, eu até percebo a razão (ando mal habituado com as cervejas artesanais…). E também havia paparocas, para quem tivesse um ratinho no estômago.

Se me diverti? Imenso! Antes de mais nada, o(s) espaço(s) da ADAO são incríveis, com opções tanto inside como outside (e ainda há uma torre com salas! afinal de contas a ADAO instalou-se num antigo quartel de bombeiros).

Depois a programação era muito variada: música (alternativa mas de muitos estilos), pintura, escultura, teatro, cante alentejano, performances, etc. E até poemas. Os meus. Aqui vai um estupor de um exemplo:

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